Coletores catadores

 

                                                                           I

Rua Afonso Botelho. Feriado republicano. Uma senhora de chapéus de abas largas empurra um carrinho de mão, cercado de arame fino e quase cheio de papelão, latinhas, garrafas pets e tantas outras coisas encontradas de centímetro em centímetro caminhado pelas ruas, sabe Deus desde que horas, sabe quem desde quantos anos.

 

                                                              II

Já na Antônio Rebouças, mais uma carrocinha. Desta vez é guiada por um senhor de meia idade, amorenado da vida e do sol. Na cabeça, boné ocre e olhos baixos como se canalizassem a força da terra assentada pelo asfalto. Solto um “bom dia”, sem recear atrapalhar o penoso processo de transformação da ausência de energia em força para o próximo passo. Recebo como resposta um “dia” meio vigoroso, meio acanhado. Passa do meio dia. Uma atenção demorada revela os braços rígidos de carregar tantos quilos de tudo o que é jogado fora; os dedos agarrados à haste da carrocinha como se, à frente, um centauro a puxasse.

 

                                                               III

Subindo a Manoel Ribas, um rapaz passado pouco dos 30 fazia o caminho de volta. Voltava por duas razões: a mais óbvia, porque o carrinho estava tão cheio quanto fosse possível; a segunda, porque rumava sentido Xarquinho. O peso era tanto e a subida - um caminho de aventuras para os ciclistas de final de semana - era tão penosa, que nem mais os braços podiam tracionar o transporte. Era a cabeça pendida encostada na haste de ferro aquilo que empurrava  a carrocinha, cuja única separação entre o ferro e a testa do rapaz era um ralo tecido do boné cansado mal colocado sobre a cabeça.

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